domingo, 18 de outubro de 2020

Nós e o vírus

 

                                  Nas mãos de Deus?


Recebo um WhattsApp que me faz sorrir: “Vocês ainda limpam as compras do mercado ou já entregaram pra Deus”? Claro que é uma brincadeira, destinada a nos fazer rir, mas também capaz de nos fazer refletir: há quanto tempo estamos – pelo menos, muitos de nós – nesta rotina de chegar com as sacolas do mercado e nos pormos, furiosamente, a lavar e passar álcool 70 em tudo? Em alguns casos, nem as sacolinhas escapam da higienização!

Limpar compras de mercado já era, antes da pandemia, hábito em muitos lares. Mas, o indesejável vírus deixou tudo muito mais difícil. Porque, agora, essa limpeza é feita sob tensão, com medo de deixar de fora alguns milímetros da superfície higienizada, onde, exatamente ali, possa estar, rindo de nós, às gargalhadas, o vírus maléfico.

E, assim, terminada a tarefa da limpeza, estamos exaustos, não tanto por causa do trabalho, mas pelo medo de não termos conseguido fazê-lo perfeito! Essa é apenas uma das consequências do vírus em nossas vidas. A reclusão forçada, a falta de um passeio, do contato direto com a arte, com o esporte; o trabalho e a escola prejudicados, a certeza de que em uma imensurável quantidade de casas não é possível tomar precauções básicas contra o vírus, tudo se acumula e nos causa desconforto.

 Depressão, doenças graves sem acompanhamento médico e violência doméstica são apenas alguns efeitos da pandemia. Mais que isso, esse tal de “novo normal” resulta em atitudes descabidas e violentas até em pessoas pacíficas. Uma amiga conta que foi insultada na fila do caixa do supermercado por ter percebido, antes dos demais, um outro caixa se abrindo e ter sido a primeira a ser atendida nesse caixa. E quem gritava, chamando-a de “espertalhona”, era uma senhora acompanhada do marido!

Leio no jornal que um desentendimento na fila do caixa, em outro supermercado, resultou em agressão física e intervenção da polícia, tudo porque um cliente estava supostamente muito perto do outro, desrespeitando o protocolo de segurança em tempos de pandemia. E fico sabendo que um famoso ator de novelas, ao ver a praia cheia, no Rio de Janeiro, com várias pessoas sem usar máscara, despejou sua raiva contra os idosos: “Tomara que morram mesmo”!

Esse é o poder do vírus: despertar o pior do ser humano. Mas, paralelamente, também vem despertando o melhor, traduzido por solidariedade, ajuda material e psicológica, dedicação da área de saúde, pesquisa, reinvenção de cada um, arte e esporte em lives.

Por isso, não concordo nem com os mais espiritualizados e otimistas, que esperam um ser humano melhor pós-vírus, nem com os revoltados, que atribuem à pandemia todas as desgraças atuais da humanidade. Somos o que somos: alguns, mais anjos, outros, mais demônios. O ser humano é dual, composto de ambos os aspectos, e compete a cada um optar pela face que vai predominar.

E até o advento da tão aguardada vacina (quando chegará? Será segura? E eficiente?)  teremos que conviver com a pandemia e com a humanidade como a conhecemos. Chorar as mortes e rir das piadas sobre o vírus. Continuar nos preservando, mas vivendo; reclamando das informações conflitantes, mas ávidos por elas. Discordar, mas amar. Esse é o papel reservado ao homem. Com ou sem pandemia. Ou você já entregou tudo pra Deus?!  


   (Publicado na "Tribuna Livre"

  do jornal "A Tribuna", em 18/10/2020)                                                                                                                             

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

João Vitor - 9 anos

 

                        

                     Tico-tico inesquecível

 



Você olha para mim, com uma expressão desconsolada, e declara: “Não dá, vovó, tico-tico acabou pra mim”! Eu observo você sentado no tico-tico, as pernas compridas, os joelhos quase encostando no queixo, e concordo. Você cresceu, João Vitor, o tico-tico fica difícil para você pedalar. Não posso deixar de sentir uma certa tristeza: embora você goste muito de sua linda bicicleta, ainda tem vontade de pedalar o tico-tico, único veículo compatível com a área na casa da vovó, onde você pode “apostar corrida” com seu irmãozinho Luiz Felipe. E tenho pena. É lindo ver você crescer, mas isso significa renunciar a outras alegrias, de um tempo em que você era um garotinho e o tico-tico, uma grande diversão.

 Mas não importa: atendo ao seu pedido e faço as vezes de sinal aberto ou fechado e “dou as partidas” nas “corridas de Fórmula 1”, vocês de tico-tico ou patinete, eu, de coração feliz por poder participar desses momentos mágicos. Você chegou aos nove anos pleno de alegria e disposição, mesmo vivendo esta quarentena, que já está se estendendo muito além do que imaginávamos no início. A rotina foi alterada, os hábitos tiveram que se adaptar, a escola e os amigos entraram no modo on-line. As saídas de casa são raras, o estudo modificou-se, e a diversão, também. E, embora com o crescimento, você tenha mais momentos de quietude e reflexão, nada tira sua alegria, sua vontade de correr e de brincar. Afinal, você é uma criança!

            Uma criança amorosa e algumas vezes emburrada ou explosiva, principalmente quando as coisas não correm como você quer. Mas, logo depois está rindo e encantando quem está à sua volta. Uma noite, em sua casa, a briga com o Tite havia sido “séria”. Você, ainda bravo com seu irmão, viu que ele queria tomar água antes de dormir, e não teve dúvidas: foi na cozinha buscar o copo d´água, que o Luiz Felipe agradeceu e tomou com prazer. Você é assim, João: não tem espaço para ressentimentos em seu coraçãozinho.

            Muitas vezes, você surpreende com seus comentários e atitudes que já revelam a aproximação de uma certa maturidade. Como quando, em sua casa, depois da vovó e vovô Paulo passarem alguns dias, na hora de despedir, você, como gente grande, colocou a mão na cintura e perguntou: “Bom, agora, até quando”?.... Ou quando você chega em nossa casa e logo vai conferindo se o vovô Paulo está por perto. E cobra: “Cadê o vovô?”

            Nesta quarentena por causa do coronavirus, você, Tite, mamãe e papai estão tendo oportunidade de exercitar muita paciência e amor. Muitos dias fechados em casa, você e seu irmão acostumados com as diversas atividades escolares e com a convivência com os amigos, o jeito é apelar para a web. Aí entram a paciência da mamãe para ajudar nas conexões e nas lições on-line; do papai, que mesmo em home office, auxilia quando pode; e a paciência sua e do Luiz Felipe, que tiveram que se adaptar ao espaço entre as paredes do apartamento. É assim que vocês exercitam o amor em família, ainda mais unida nestes tempos complicados.

            Com os vovós Ana e Paulo, Janne e Santiago, a comunicação foi inúmeras vezes por vídeo, um jeito de matar a saudade. O dia em que o Tite me mostrou o livro dos Monsters Jam, que ele havia colorido, você mostrou o seu, dos prédios mais altos do mundo. Com capricho, você anotou altura e número de andares de todos eles. Vi um por um e, mais uma vez, me surpreendi com seus comentários e entonação de gente grande. Quando eu disse para você guardar bem o álbum, porque ia gostar de ver daqui a alguns anos, você me “explicou”: “Mas, vovó, aí já vai ter prédios ainda mais altos”!

            E confirmando que você está se tornando um rapazinho, você me contou dia destes: “Você sabe que agora eu gosto de pizza”? Curiosa, perguntei: Pizza de quê”? E você, rápido: “De calabresa, claro. Até experimentei uma de queijo – “muçarela”, soprou a mamãe – mas não gostei muito”. E como alguém entendido em pizza, declarou: “Prefiro a de calabresa, é bem melhor”!

            Já sabe lidar com a internet, sempre sob a supervisão da mamãe e do papai, e até tem um grupo no Messenger, do qual fazem parte você, eu, vovó Janne e memê Rosário. E se diverte mandando figurinhas para nós ou acrescentando desenhos engraçados em você mesmo quando a comunicação é ao vivo. Mas, também se diverte brincando de bartender, usando copos de plástico e enfeites da casa da vovó. Quer todos os membros da família como “clientes”. Há pouco tempo, vovó precisou ir na cozinha e não tinha mais ninguém para brincar. E você; “Não vai, não, senão fico sem fregueses”!

            Carinhoso, alegre – embora atualmente um pouco mais introvertido –, você ainda brinca com carrinhos e caminhões, junto com o Tite. Não abre mão de acompanhar a Fórmula 1, e seus programas de TV prediletos tanto podem ser um desenho quanto a filmagem de uma corrida de anos passados. Gosta de desenhar – e desenha bem – mas é imbatível na construção de maquetes de prédios, ruas e cidades, utilizando materiais comuns, como pedrinhas e papelão pintado.

            Aí está um pouco de você, João Vitor, aos 9 anos. Nosso bebê de nove anos atrás continua cada vez mais amado pela família e pelos amigos. Nas “janelas” deixadas pelos dentinhos que caíram já se debruçam os novos e definitivos dentes, anúncio da chegada de uma nova fase em sua vida. Que – tenho certeza – continuará cheia de luz e confiante nas conquistas que estão por vir. Porque você já descobriu que persistir é preciso. E, se depender do pensamento positivo desta vovó Ana, a Proteção Divina nunca vai abandoná-lo. 

                  

                    

               

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Armando Sendin

 

                               

                             A leveza do mar

                                                          

                         

 

As transparências, a leveza e a cor de seus óleos sempre impressionaram. E a simplicidade e cavalheirismo do pintor, também. Armando Sendin, que faleceu em 30 de julho, na Espanha, deixa uma obra que ajudou a projetar Santos nacional e internacionalmente.

Nas décadas de 60 a 90, a Cidade era fértil em produção artística de qualidade, com importantes festivais de teatro, literatura que se beneficiava do embate entre academicismo e modernismo, grupos de música erudita e corais, espetáculos amadores que rivalizavam com profissionais. Até festival de MPB tivemos e – diga-se – com excelente nível!   Vinham a Santos, consagrados pintores, atores, pianistas, cantores, compositores e humoristas, que lotavam os salões e ginásios de clubes, agitando associações culturais, produtores, jornalistas, críticos e público e interessado em cultura e entretenimento de bom nível.

Foi nesse clima que o pintor, ceramista, escultor, gravador, professor e desenhista Armando Moral Sendin optou por se mudar para a Cidade, junto com sua esposa Sita, a jovem artista que ele havia conhecido na Escola de Belas Artes, em Barcelona, Espanha. Sendin era já então um nome respeitado da arte contemporânea.

 Mas, Santos, onde havia passado alguns anos de sua infância, deixara marcas em sua memória. O mar não se faz de rogado em seu trabalho, como tema recorrente e inspirador de um clima de sonho. As figuras nas obras de Sendin surgem em atividades prosaicas ou de lazer, em um realismo perfeito, que não exclui o impressionismo. Um trabalho muito pessoal, com grande aceitação de público e crítica. O artista dominou como poucos a técnica da cerâmica, tendo sido o autor, junto com o irmão Waldemar Sendin, do painel da Biquinha de Anchieta, em São Vicente.

Armando Sendin nasceu no Rio de Janeiro, em 1928, filho de pais espanhóis, e foi com a família, ainda criança, morar naquele país. Apaixonado por arte e filosofia, estudou em importantes universidades europeias. Difícil é destacar um prêmio ou uma individual nacional ou internacional em seu longo currículo, com exposições nos Estados Unidos, França, Espanha e Japão, além de importantes espaços brasileiros, prêmios em bienais, como a Internacional de São Paulo e a de Santos – sim, Santos já teve bienal! – e obras em acervos particulares e oficiais, em todo o mundo.

Em Santos, suas individuais, na galeria do então Centro Cultural Brasil-Estados Unidos, atraiam tantos admiradores que, muitas vezes, era preciso esperar um grupo sair para outro poder entrar. No final da década de 90, Sendin e Sita voltaram a residir na Espanha, em Marbella, sem nunca perderem contato com a Cidade. Nos finais de ano, muitos amigos recebiam de além-mar a arte de Sendin, em cartões de Boas Festas.

Em 7 de outubro de 2014, em noite memorável e superlotada, Sendin voltou a Santos para doar parte de seu acervo – quadros e cerâmicas – à Pinacoteca Benedicto Calixto, para fazerem parte do futuro Museu de Arte Moderna de Santos. E para a Cidade nunca esquecer que já viveu um período de ouro na cultura.

   

      

   

terça-feira, 28 de abril de 2020

Luiz Felipe - 6 anos


                              “Porcaria de coronavírus!”





E não é que seu aniversário de 6 anos vai ser inesquecível? Não vai ter festa, não vai ter beijos e abraços dos vovós e dos amigos, não vai ter presentes. A “festa” vai ser em casa, com um bolo e os beijos e abraços dos papais e do irmãozinho. Mas, graças à tecnologia e à Internet, você vai ser muito cumprimentado por meio de celulares e tablets e vai sentir o carinho de todos que o amam. Dos vovós, então!...

Ai, que vontade de lhe dar um abraço muito apertado e de lhe cobrir de beijos! Mas não podemos. Estamos isolados. Tudo por conta da pandemia do coronavírus! Esse vírus está causando muitos estragos pelo mundo, mas em mais algum tempo vai ser eliminado e, aos poucos, as coisas vão voltar ao normal.

            Você, Luiz Felipe, esperto como é, já entendeu tudo isso. Sabe que não pode ir à escola, não pode ver os amigos, não pode descer a qualquer hora do seu apartamento para jogar futebol no campinho do prédio. E está muito bravo! Uma frase habitual, atualmente, é: “Mas que porcaria de coronavírus”!  Você se lembra de que não tem festa, não tem presente (só os que conseguem chegar por delivery), não tem amigos (ao vivo), não tem jantar fora com os papais e o irmão. E lá vem: “Mas que porcaria de coronavirus”!...

 Mas, você também sabe que, quando a tal quarentena passar, a vida voltará ao normal e, aí, seu aniversário será devidamente comemorado. E – não tenho dúvidas! – você vai “cobrar” essa festinha!

            Para matar a saudade causada pelo isolamento, sua mamãe faz ligações por vídeo para os vovós. Que alegria ver e conversar com você, o irmãozinho João Vitor, a mamãe e o papai! Dia destes, você não estava muito a fim de papo, era horário de usar o tablet, e os joguinhos de computador chamavam mais a sua atenção.

            Eu conversava com o João, até que mamãe se lembrou do álbum que o João tinha feito, com os maiores prédios do mundo. E perguntou para você: “E o seu álbum, Luiz Felipe, onde está “? No segundo seguinte, você estava correndo – aliás, essa é a maneira habitual de você se deslocar: correndo e aos pulinhos – e voltou com o álbum dos Monster Jam para mostrar.

            Elogiei a maneira como você tinha pintado as figuras, e você, todo orgulhoso, foi virando as páginas e mostrando uma por uma. No fim, declarou: “Pronto, acabou”! E, bem à sua maneira, encerrou a conversa e voltou ao tablet!

            Sim, você está crescendo, mas continua gracioso, com expressões e jeito encantadores e sedutores. No seu primeiro ano do Ensino Fundamental, já demonstra interesse pelas letras, sílabas, palavras e números. E, agora, nestes dias em casa, mamãe e papai inventam mil e uma atividades para distrair você e seu irmão.

Mas, mamãe também faz as vezes de pedagoga, cobrando e ensinando as lições da escola. Muitas vezes, você se distrai e precisa ser chamado “de volta à realidade”. É esse clima de paciência que mamãe e papai têm conseguido criar em casa, nestes dias de quarentena. Um período que, certamente, ficará em sua memória como uma época não tão difícil porque você e João estão cercados de amor e proteção.

Os mesmos amor e proteção que você sabe retribuir. Como quando, há alguns meses, após gostoso almoço na casa da vovó Janne e do vovô Santi, houve uma “apresentação” da dupla João e Tite. João Vitor, de pé, segurava o violão grande e você, o de brinquedo. Então, de repente, você disse para esperarmos um pouco e saiu correndo para a sala. Ficamos todos na expectativa, até você voltar empurrando uma cadeira com esforço: “É para o João. O violão é muito pesado”!

Agora, você e seu irmão já frequentam aulas de música. Ambos gostam de tocar instrumentos – você “arrasa” na bateria! – e são muito afinados. Futebol, natação e capoeira estão na “grade” das atividades, todas prazerosas. Praia e bicicleta – quando você vem às casas dos vovós – continuam sendo uma alegria.     

Você está crescendo, Tite, também em inteligência. Meu lindo netinho raciocina rápido, fala com muita graça – quase sempre gesticulando, um pouco da herança italiana do vovô Paulo – e surpreende com suas tiradas certeiras. Às vezes, parece gente grande, como quando lhe perguntei por um determinado carrinho e você, usando as mãozinhas para acentuar a resposta: “A última vez que vi esse carrinho...foi...” e saiu aos pulinhos, ciente de que não sabia a resposta, mas não querendo dar o braço a torcer!

De outra vez, Memê Rosário e Pepê Philippe foram se despedir, no fim de uma festa. Memê pediu um beijo, e você: “Agora não posso, estou ocupado”! E saiu correndo com os amiguinhos... Ah! E teve um dia em que, em sua casa, após o jantar, você pediu chocolate. Como mamãe não libera chocolate a toda hora, para evitar o excesso, lhe ofereceu uma banana, que você, emburrado, recusou. Então, mamãe chamou para ajudá-la a levar o lixo reciclável no subsolo. E você, para escapar da tarefa, correu para a cozinha: “Então, me dá uma banana, que eu vou comer”!

Às vezes, quando se esquece de fazer alguma coisa que mamãe quer que faça, e ela pergunta, você responde que fez. Mas, se mamãe vai verificar a veracidade da resposta, você sai “como um foguete” na frente dela, para fazer o que tinha esquecido, e com a expressão mais angelical, declara: “Ah, lembrei! Eu tinha esquecido”!

E, quando pergunta alguma coisa para nós, espera uma resposta direta. Vovós Ana e Paulo passaram uma semana em sua casa, para vovô se recuperar de um problema de saúde. Você, depois de alguns dias, estranhando, perguntou: “Por que vocês estão aqui”? Respondi: “Porque vovô está se recuperando. Não pode”? E você, rápido e dando-se por satisfeito com a explicação: “Pode sim”. E já mudou de assunto.

TV ligada, mostrando desfile das escolas de samba no Carnaval. Você acabando de lanchar na outra ponta da sala, mas atento. Então, resmunga para você mesmo: “E quando vai passar aqui”? E eu: “Vai passar o quê, Tite? O Carnaval”? Você: “É, o Carnaval”. Eu: “Passar aqui, onde? Em frente de casa”? Você “É”! Explico que não vai passar, que é preciso ir ao sambódromo para ver o Carnaval. E isso só daqui a alguns anos, quando você estiver maior. Resposta rápida: “Tá bom”! E não se fala mais nisso!

 É assim que vamos conhecendo sua personalidade. Você não gosta de perder tempo, quer saber tudo e resolver tudo logo. Você ainda é pequeno, não admite ser passado para trás, mas, muitas vezes, para evitar desavenças, se sai com uma frase habitual: “Tá bom, vai”! De vez em quando, faz manha e “bico”, sabe ser dengoso – quem resiste à sua carinha? –, mas distribui carinho, principalmente para mamãe, papai e o irmão. João é companheiro inseparável nas brincadeiras e nas “brigas”. E você, junto com ele, é a luz que ilumina a casa. E as nossas vidas.

Neste seu sexto aniversário, tudo que esta vovó Ana pode desejar é que você continue sendo essa luz maravilhosa. Que sua personalidade alegre o acompanhe para sempre nos caminhos a serem percorridos porque você, com certeza, é uma pessoa predestinada a distribuir felicidade.       

 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Natal 2019




Crônica publicada no último dia 24, na seção "Tribuna Livre", do jornal "A Tribuna"                           


               O Papai Noel baterista

                                                           



Todos orgulhosos, os dois meninos mostravam às visitas a Árvore de Natal que haviam ajudado a decorar. Mas, o mais velhinho logo apontou para os Papais Noéis de brinquedo perfilados em baixo da árvore: “Este, que tocava bateria, não toca mais”! E o menorzinho, igualmente pesaroso: “É, quebrou”! Os visitantes procuraram consolar os pequenos, mas logo o assunto foi esquecido.

Menos pelos dois anjos da guarda dos meninos, que, agora, tinham uma preocupação: não deixar os pequenos – que não acreditavam em Papai Noel de verdade – ficarem tristes com o brinquedo que não mais tocava bateria. O anjo um pouco maior e já mais realista tentava explicar ao menor que, há muito, a humanidade deixara de acreditar em Papai Noel. E – pior! – deixara também de se importar com os valores que a época colocava em evidência, como amor e fraternidade.

            Eles mesmos, anjos-crianças, sabiam que Papai Noel não existe. Mas queriam ajudar seus protegidos, e decidiram que iam fazer os meninos sonhar o mesmo sonho. Juntos, os quatro voaram pela Terra, às vezes encantados com a beleza de luzes e paisagens, outras, tristes pela realidade de devastação e miséria. Queriam proporcionar uma noite divertida aos meninos, porém a realidade se sobrepunha: eram muitos os contrastes de vida e de sentimentos.

            Mas, alguma coisa estava diferente. A noite estava mais iluminada, havia música subindo da Terra e várias pessoas usando roupa vermelha, com barba branca e carregando um saco às costas. Eles conheciam a figura, mas, como não acreditavam, nunca tinham visto Papai Noel de verdade. Meninos e anjos foram se aproximando das pessoas e constatando a alegria que aquelas figuras de vermelho causavam não só em crianças, mas também em adultos.

 Havia Papais Noéis de todos os tipos, vestidos de cetim ou veludo vermelho, distribuindo presentes em ambientes ricamente decorados, e também havia outros, usando tecidos simples de vermelho já desbotado, mas igualmente distribuindo doces, brinquedos baratos e esperança em lugares feios e tristes.

            Estavam tão distraídos, que nem notaram a aproximação de um trenó puxado por renas, deslocando-se no ar. Só quando foram saudados pela figura de vermelho, perceberam que, pela primeira vez, estavam vendo Papai Noel. Que, aliás, não se fez de rogado, e logo foi mostrando como o Natal transforma boa parte da humanidade. Crianças tristes e solitárias estavam felizes com seus ricos ou pobres brinquedos; adultos acabrunhados abriam seus corações à esperança de receber saúde, amor e felicidade. “É Noite de Natal, quando as pessoas se recordam da mensagem de paz e amor trazida à Terra por um Ser Iluminado, há 2019 anos. É quando o mal é suplantado pelo bem, em inúmeros corações”.

            Mas, crianças e anjos só tinham uma pergunta: então, Papai Noel existe?! “Sim, para muitas crianças. Os outros dizem que não há Papai Noel, mas, no fundo, nunca se sabe... O Natal é mágico”! E, todo animado, propôs uma festa para celebrar o Natal. Todos concordaram e Papai Noel foi logo assumindo as baquetas de uma... reluzente bateria! Foi assim que a música da Noite de Natal rolou animada até o amanhecer.

 Quando acordaram, os meninos correram para ver o Papai Noel baterista, em baixo da Árvore de Natal. Mas, ele continuava lá, quietinho, ao lado dos outros brinquedos. Compreenderam que tinha sido uma noite de fantasia, para celebrar o amor. Voando por sobre eles, os dois anjinhos da guarda piscaram, felizes, um para o outro.

Viva a "Répública"!


                              
Publicada em 15 de novembro deste ano, na seção "Tribuna Livre", do jornal "A Tribuna"


                 República reciclada





“Mas, isto é uma “répública” (assim mesmo, com o “é” aberto)!” Ouvi muito essa frase em tempos de criança, dita por avós e pessoas mais velhas. O sentido, hoje entendo, era pejorativo, o mesmo que dizer “isto é uma bagunça!” Referia-se quase sempre a algum acontecimento político ou à situação do País, mas também podia se referir ao convívio em família, às relações com amigos e com a sociedade em geral.

Nestes casos, era uma crítica à falta de responsabilidade, que gerava confusão e desordem. Herança do regime monárquico, que via a república como um tipo de governo em que cada um faz o que quer, como bem entende. Hoje, república, palavra originada do latim “res publica”, coisa pública, assumiu no Brasil seu verdadeiro e solene sentido, de regime de governo eleito pelo povo. Sistema político originado na Roma Antiga, a república tem uma longa e rica História, com basilares autores e obras literárias.

Mas, convenhamos, atualmente, no Brasil, a República anda precisando de reciclagem. Nestes 130 anos de existência no País, desde a sua proclamação em 15 de novembro de 1889, passou por muita coisa, de períodos sombrios a épocas de glória. Marechal Deodoro da Fonseca, à frente de um grupo de militares, a proclamou na Praça da Aclamação, atual Praça da República, no Rio de Janeiro, então capital do Império.

D. Pedro II, a família real e políticos fiéis ao imperador e ao regime até então em vigor, de monarquia constitucional parlamentarista, foram mandados para a Europa, e teve início o regime republicano no Brasil. Hoje, pouco se recorda desse fato histórico, e há até correntes de ensino que abominam o estudo da História, preferindo se debruçar sobre a atualidade. Para mim, uma espécie de construção de edifício sem alicerces!

Mas, afinal, estamos em uma república! E o que mais se tem ouvido ultimamente, na mídia, é o termo “não republicano”. É não republicana a fala de um político ou de um jurista, é não republicano o posicionamento de alguém famoso. A Internet, em sua velocidade vertiginosa, ajuda a divulgar o conceito, e o cidadão comum, homem do povo com suas infindáveis dificuldades, pouco se importa se alguma coisa é ou não republicana.

Aliás, nem entende muito bem essa expressão, o que deseja mesmo é minimizar seus problemas, com ou sem atitudes republicanas. Ele quer, por exemplo, ver o dinheiro de seus impostos revertido para a saúde, educação, alimentação, habitação etc. Não suporta pensar na corrupção de políticos e na ausência de punição para eles.

Quer emprego e, quando empregado, não quer viver sob a constante ameaça de desemprego. Quer Executivo e Legislativo que busquem a solução de problemas fundamentais e não se percam em intrigas de bastidores; quer Justiça imparcial, mas não cega aos interesses da população.

Ao longo dos séculos, o conceito de república sofreu muitas alterações, e, hoje, é tomada, muitas vezes, como sinônimo de democracia. Sua história é muito rica, os muitos autores e pensadores que contribuíram para sua edificação são reverenciados.

Mas, fiquemos com Cícero, que em sua obra “De Republica”, baseava-a na liberdade do povo, autoridade do senado e competência dos juízes. Não estará na hora de reciclarmos esse tripé, com um povo livre, que possa levar vida digna, e com legisladores e juízes honestos, responsáveis e competentes? Só assim república não será sinônimo de bagunça e o pejorativo “répública” cairá definitivamente em desuso!     



        

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

João Vitor - 8 anos


                                            


                              O craque João

                                                           



Quando, há exatos oito anos, conheci você, um lindo bebê aconchegado à sua mamãe, e meus olhos se encheram de lágrimas de avó emocionada, era muito difícil imaginá-lo como é hoje, João Vitor, um garoto inteligente e esperto, ativo, que adora uma brincadeira e que – avó pode falar! – continua lindo.

       Você conquista as pessoas, crianças e adultos, e tem muitos amigos. É alegre, adora uma brincadeira de moleque, mas também demonstra sensibilidade, não esconde sentimentos. Na música, esse aspecto de sua personalidade aflora. Você canta, muito sério e afinado, as músicas de sua playlist de alta qualidade (influência do papai e da mamãe). Sua expressão facial, rara em um menino de sua idade, indica o quanto você se envolve com a canção e fica feliz quando a pequena plateia doméstica presta atenção e aplaude.

Rodeado pelo amor da mamãe, do papai e do irmão Luiz Felipe, cresce e se desenvolve rapidamente, retribuindo com seu jeito de menino o amor que recebe. Amor, aliás, que se estende aos vovós, familiares e amigos. Para nós, você e o Tite são personagens marcantes na história de nossas vidas. Aqueles que, mesmo quando fisicamente ausentes, estão ali, bem juntinho a nós, em nosso pensamento, revivendo momentos e brincadeiras inesquecíveis.

E o futebol? Ah! o futebol!... Suas atividades são diversas, da escola e lições de casa à natação e capoeira, passando pelas aulas de inglês e teatro, corridas e brincadeiras com os amigos, mas o futebol tem um lugar especial. O fascínio da bola rolando o alcançou, e qualquer lugar pode virar um “campinho”: a área onde você joga e aprende as regras desse esporte (até medalha já ganhou!), a quadra do prédio, a praia (quando vai à casa dos vovós Janne e Santiago) e, em dias de chuva,  até o corredor do apartamento dos vovós Ana e Paulo.

Além dos amigos, qualquer pessoa da família serve para parceiro de “pelada”. Mamãe pode ser craque, mas papai, vovós Janne, Santiago e Paulo também são “escalados”, e até esta vovó Ana já foi goleira! O que você não sabe é o orgulho do palmeirense vovô Paulo – que também já foi craque – de vê-lo jogar. E, torcer para o time do coração!

Em viagem a hotel-fazenda, não perdeu um dia de futebol, participou de todas as atividades, da piscina e pescaria ao passeio a cavalo, mas o que mais o empolgou foram as bicicletas. Curtiu tudo e até participou, com o Tite, da “encenação” das crianças, organizada pelos monitores, na última noite da temporada. E o melhor: apesar de, antes, dizerem que não queriam participar, ambos se divertiram e se saíram muito bem! Ganharam até as miniaturas dos carros que queriam: você, o Santa Fé (finalmente! custou para encontrar!) e o Luiz Felipe, um carro de polícia, claro!

Quando você vai a Serra Negra, às vezes passa na casa das tias Antonia e Nilde, deixando-as muito felizes. Elas dizem que você é um lorde e o Tite, um serelepe, mas logo você se encarrega de mostrar que é tão serelepe quanto ele, correndo pela casa e “aprontando” nas redes de balanço da varanda.

Em Serra Negra, programa imperdível dos dois é disputar corrida na praça, andar nos carrinhos e no trenzinho. E – não pode faltar! – tomar sorvete na sorveteria do fundo da praça. Agora, que estão maiores, acrescentou-se um novo programa: subir de teleférico até a estátua do Cristo. No colo da mamãe e do papai, claro, que essa “aventura” é nova e o teleférico, muito alto!

Mas você, João Vitor, apesar de conservar esse aspecto criança, começa a amadurecer de um jeito que, às vezes, me pega de surpresa: na escola, fenômenos da natureza foram temas de discussão, e você quis saber depois, de Memê Rosário e Pepê Philippe, como é viver em um lugar onde há vulcões e podem ocorrer terremotos. Foi um papo sério, de gente grande, e, no final, você ficou tranquilo com a garantia de que em nosso País, apesar dos muitos problemas, esses não nos afetam.

Já demonstra interesse por jogos de números e raciocínio – adora Banco Imobiliário! – e gosta de ver prédios bonitos, se possível, conhecendo os apartamentos em exposição. Um dia, fomos, vovós Janne e Ana, além do Tite, conhecer por dentro um edifício que você sempre achou bonito. Na saída, em sua adorável ingenuidade, declarou: “Quando eu crescer, vou comprar um apartamento aqui”!

Será que a arquitetura está no sangue, como vovô Santi? E será que “puxou” ao vovô Paulo, quando para nas vitrines para apreciar os relógios de pulso e até pede informações à vendedora? Que, aliás, o olha um pouco espantada, mas não se furta a responder às suas perguntas!

Você é assim, meu querido João. Quando está conversando, pergunta o significado de todas as palavras que não conhece, e não se contenta com um simples sinônimo, quer entender o significado total. E quando você deseja alguma coisa que lhe é negada, utiliza todos os argumentos e explicações, na tentativa de convencer mamãe ou papai, até chegar ao “porque sim!” ou “porque não!” Nem sempre dá certo!

Nesse caminho de descoberta do mundo, um dia eu lhe explicava como as atitudes positivas dão melhor resultado do que as negativas. Você ouviu atentamente, até concordou, mas tinha uma pergunta: “E onde você aprendeu isso, vovó?”

Essa criança esperta e adorável é você. Como toda criança, leva bronca da mamãe e do papai, quando preciso. Mas ganha deles, também, muitos beijos e abraços. Mamãe continua sinônimo de amor, refúgio e muitas brincadeiras. Papai, igualmente, é amor, exemplo e diversão. Com o Tite, como é natural, brinca, briga e às vezes assume a postura de irmão mais velho. Mas demonstra seu carinho em detalhes, como quando lhe perguntaram para quem ia a primeira fatia de um bolo. E você, rapidamente e acentuando o “meu”: “Para meu irmão!”

Meu amor por você, João Vitor, e seu irmão, é imensurável. Por isso, é muito grande a minha felicidade quando estou conversando por telefone com a mamãe e ela diz: “O João quer falar com você”. E ouço a sua voz, deliciosamente criança, dizendo “Oi, vovó!” É então que mato saudades, sinto você mais perto e peço aos Céus que continuem lhe protegendo pelos caminhos do amor, da retidão e da felicidade!