quarta-feira, 24 de junho de 2026

Dia de Santo Antônio

 Crônica publicada no jornal A Tribuna em 13/06/2026


          O sorriso da esperança

                                                                   

Recostado em uma pedra, sozinho, à noite, na praia deserta, ele observava as estrelas, numerosas e brilhantes no céu limpo e profundo de inverno. Elevou uma prece ao Pai, que lhe permitia aqueles momentos mágicos em um planeta tão lindo e tão sofrido. As comemorações do seu dia estavam próximas. Ele sorriu.

            Lembrou-se de como ultimamente vinha aumentado sua atividade de conselheiro, intercessor na resolução de causas difíceis, apaziguador em embates que ameaçavam destruir uniões, tribuno forte e inflamado na defesa de uma população carente e cada vez mais miserável. Desde o início havia sido assim: ele nascera para ajudar nos mais diversos campos das relações e emoções humanas.

            Mas nunca havia sido tão requisitado como agora. Provavelmente, o ódio que se apossara de muitos corações, que nem mais sabiam o real motivo de odiarem, é que dava origem a tanto trabalho: impedir a ação de malfeitores e assassinos; evidenciar para mentes duras a nobreza do amor e do perdão; orientar líderes e pessoas comuns no reconhecimento da igualdade entre os seres humanos; socorrer doentes e vulneráveis.

            Eram muitos os pedidos que chegavam. Ainda se lembrava da primeira vez em que dividira pão com os famintos. Desde então, fazia de tudo para atender aos apelos mais diversos, estudando cada um com carinho. Interessante como vinham aumentando, também, pedidos para que ajudasse a concretizar uniões amorosas.

            A fama vinha de muito tempo, quando conhecera uma jovem apaixonada cujo amor era correspondido por um rapaz de família com status e fortuna muito superiores aos da moça. O casamento era impossível! Mas a noiva sabia que ele condenava preconceitos e pediu seu auxílio. Com sua palavra poderosa e convincente, defendendo o amor contra interesses mesquinhos, ele garantiu a felicidade do casal.

            A fama se espalhou e os pedidos de ajuda nunca mais pararam de chegar. Agora mesmo, acabara de receber inúmeros. Eram pessoas buscando realização na vida amorosa. Ele se debruçava sobre cada pedido, mas nem sempre podia atendê-los.      Com o aumento de feminicídios e agressões entre casais, ele até podia prever o mau resultado de algumas uniões, mas, como não podia impedi-las, arquivava os pedidos.

            Era um mundo caótico, que ele não mais reconhecia. Suspirou, sabendo que seu trabalho de intercessor ia aumentar. Levantou-se e começou a caminhar pela areia até desaparecer. Em sua cabeça, a aureola brilhava refletindo a luz das estrelas. Apesar de tudo, Santo Antônio estava feliz: a alegria das comemorações de sua data traria esperança para muita gente sofrida!   

Nenhum comentário:

Postar um comentário