Crônica publicada no jornal A Tribuna em 13/06/2026
O sorriso da esperança
Recostado em uma pedra, sozinho, à
noite, na praia deserta, ele observava as estrelas, numerosas e brilhantes no
céu limpo e profundo de inverno. Elevou uma prece ao Pai, que lhe permitia
aqueles momentos mágicos em um planeta tão lindo e tão sofrido. As comemorações
do seu dia estavam próximas. Ele sorriu.
Lembrou-se
de como ultimamente vinha aumentado sua atividade de conselheiro, intercessor
na resolução de causas difíceis, apaziguador em embates que ameaçavam destruir
uniões, tribuno forte e inflamado na defesa de uma população carente e cada vez
mais miserável. Desde o início havia sido assim: ele nascera para ajudar nos
mais diversos campos das relações e emoções humanas.
Mas nunca
havia sido tão requisitado como agora. Provavelmente, o ódio que se apossara de
muitos corações, que nem mais sabiam o real motivo de odiarem, é que dava
origem a tanto trabalho: impedir a ação de malfeitores e assassinos; evidenciar
para mentes duras a nobreza do amor e do perdão; orientar líderes e pessoas
comuns no reconhecimento da igualdade entre os seres humanos; socorrer doentes
e vulneráveis.
Eram muitos
os pedidos que chegavam. Ainda se lembrava da primeira vez em que dividira pão
com os famintos. Desde então, fazia de tudo para atender aos apelos mais diversos,
estudando cada um com carinho. Interessante como vinham aumentando, também,
pedidos para que ajudasse a concretizar uniões amorosas.
A fama vinha
de muito tempo, quando conhecera uma jovem apaixonada cujo amor era
correspondido por um rapaz de família com status e fortuna muito superiores aos
da moça. O casamento era impossível! Mas a noiva sabia que ele condenava
preconceitos e pediu seu auxílio. Com sua palavra poderosa e convincente,
defendendo o amor contra interesses mesquinhos, ele garantiu a felicidade do
casal.
A fama se
espalhou e os pedidos de ajuda nunca mais pararam de chegar. Agora mesmo,
acabara de receber inúmeros. Eram pessoas buscando realização na vida amorosa.
Ele se debruçava sobre cada pedido, mas nem sempre podia atendê-los. Com o aumento de feminicídios e agressões
entre casais, ele até podia prever o mau resultado de algumas uniões, mas, como
não podia impedi-las, arquivava os pedidos.
Era um mundo
caótico, que ele não mais reconhecia. Suspirou, sabendo que seu trabalho de
intercessor ia aumentar. Levantou-se e começou a caminhar pela areia até
desaparecer. Em sua cabeça, a aureola brilhava refletindo a luz das estrelas.
Apesar de tudo, Santo Antônio estava feliz: a alegria das comemorações de sua
data traria esperança para muita gente sofrida!
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