Publicada em 15 de novembro deste ano, na seção "Tribuna Livre", do jornal "A Tribuna"
República reciclada
“Mas, isto é uma “répública” (assim
mesmo, com o “é” aberto)!” Ouvi muito essa frase em tempos de criança, dita por
avós e pessoas mais velhas. O sentido, hoje entendo, era pejorativo, o mesmo
que dizer “isto é uma bagunça!” Referia-se quase sempre a algum acontecimento
político ou à situação do País, mas também podia se referir ao convívio em
família, às relações com amigos e com a sociedade em geral.
Nestes casos, era uma crítica à falta
de responsabilidade, que gerava confusão e desordem. Herança do regime
monárquico, que via a república como um tipo de governo em que cada um faz o
que quer, como bem entende. Hoje, república, palavra originada do latim “res
publica”, coisa pública, assumiu no Brasil seu verdadeiro e solene sentido, de
regime de governo eleito pelo povo. Sistema político originado na Roma Antiga, a
república tem uma longa e rica História, com basilares autores e obras
literárias.
Mas, convenhamos, atualmente, no
Brasil, a República anda precisando de reciclagem. Nestes 130 anos de
existência no País, desde a sua proclamação em 15 de novembro de 1889, passou
por muita coisa, de períodos sombrios a épocas de glória. Marechal Deodoro da
Fonseca, à frente de um grupo de militares, a proclamou na Praça da Aclamação,
atual Praça da República, no Rio de Janeiro, então capital do Império.
D. Pedro II, a família real e
políticos fiéis ao imperador e ao regime até então em vigor, de monarquia
constitucional parlamentarista, foram mandados para a Europa, e teve início o
regime republicano no Brasil. Hoje, pouco se recorda desse fato histórico, e há
até correntes de ensino que abominam o estudo da História, preferindo se
debruçar sobre a atualidade. Para mim, uma espécie de construção de edifício sem
alicerces!
Mas, afinal, estamos em uma
república! E o que mais se tem ouvido ultimamente, na mídia, é o termo “não
republicano”. É não republicana a fala de um político ou de um jurista, é não
republicano o posicionamento de alguém famoso. A Internet, em sua velocidade
vertiginosa, ajuda a divulgar o conceito, e o cidadão comum, homem do povo com
suas infindáveis dificuldades, pouco se importa se alguma coisa é ou não
republicana.
Aliás, nem entende muito bem essa
expressão, o que deseja mesmo é minimizar seus problemas, com ou sem atitudes
republicanas. Ele quer, por exemplo, ver o dinheiro de seus impostos revertido
para a saúde, educação, alimentação, habitação etc. Não suporta pensar na
corrupção de políticos e na ausência de punição para eles.
Quer emprego e, quando empregado, não
quer viver sob a constante ameaça de desemprego. Quer Executivo e Legislativo
que busquem a solução de problemas fundamentais e não se percam em intrigas de
bastidores; quer Justiça imparcial, mas não cega aos interesses da população.
Ao longo dos séculos, o conceito de
república sofreu muitas alterações, e, hoje, é tomada, muitas vezes, como
sinônimo de democracia. Sua história é muito rica, os muitos autores e
pensadores que contribuíram para sua edificação são reverenciados.
Mas, fiquemos com Cícero, que em sua
obra “De Republica”, baseava-a na liberdade do povo, autoridade do senado e
competência dos juízes. Não estará na hora de reciclarmos esse tripé, com um
povo livre, que possa levar vida digna, e com legisladores e juízes honestos,
responsáveis e competentes? Só assim república não será sinônimo de bagunça e o
pejorativo “répública” cairá definitivamente em desuso!
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