quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Viva a "Répública"!


                              
Publicada em 15 de novembro deste ano, na seção "Tribuna Livre", do jornal "A Tribuna"


                 República reciclada





“Mas, isto é uma “répública” (assim mesmo, com o “é” aberto)!” Ouvi muito essa frase em tempos de criança, dita por avós e pessoas mais velhas. O sentido, hoje entendo, era pejorativo, o mesmo que dizer “isto é uma bagunça!” Referia-se quase sempre a algum acontecimento político ou à situação do País, mas também podia se referir ao convívio em família, às relações com amigos e com a sociedade em geral.

Nestes casos, era uma crítica à falta de responsabilidade, que gerava confusão e desordem. Herança do regime monárquico, que via a república como um tipo de governo em que cada um faz o que quer, como bem entende. Hoje, república, palavra originada do latim “res publica”, coisa pública, assumiu no Brasil seu verdadeiro e solene sentido, de regime de governo eleito pelo povo. Sistema político originado na Roma Antiga, a república tem uma longa e rica História, com basilares autores e obras literárias.

Mas, convenhamos, atualmente, no Brasil, a República anda precisando de reciclagem. Nestes 130 anos de existência no País, desde a sua proclamação em 15 de novembro de 1889, passou por muita coisa, de períodos sombrios a épocas de glória. Marechal Deodoro da Fonseca, à frente de um grupo de militares, a proclamou na Praça da Aclamação, atual Praça da República, no Rio de Janeiro, então capital do Império.

D. Pedro II, a família real e políticos fiéis ao imperador e ao regime até então em vigor, de monarquia constitucional parlamentarista, foram mandados para a Europa, e teve início o regime republicano no Brasil. Hoje, pouco se recorda desse fato histórico, e há até correntes de ensino que abominam o estudo da História, preferindo se debruçar sobre a atualidade. Para mim, uma espécie de construção de edifício sem alicerces!

Mas, afinal, estamos em uma república! E o que mais se tem ouvido ultimamente, na mídia, é o termo “não republicano”. É não republicana a fala de um político ou de um jurista, é não republicano o posicionamento de alguém famoso. A Internet, em sua velocidade vertiginosa, ajuda a divulgar o conceito, e o cidadão comum, homem do povo com suas infindáveis dificuldades, pouco se importa se alguma coisa é ou não republicana.

Aliás, nem entende muito bem essa expressão, o que deseja mesmo é minimizar seus problemas, com ou sem atitudes republicanas. Ele quer, por exemplo, ver o dinheiro de seus impostos revertido para a saúde, educação, alimentação, habitação etc. Não suporta pensar na corrupção de políticos e na ausência de punição para eles.

Quer emprego e, quando empregado, não quer viver sob a constante ameaça de desemprego. Quer Executivo e Legislativo que busquem a solução de problemas fundamentais e não se percam em intrigas de bastidores; quer Justiça imparcial, mas não cega aos interesses da população.

Ao longo dos séculos, o conceito de república sofreu muitas alterações, e, hoje, é tomada, muitas vezes, como sinônimo de democracia. Sua história é muito rica, os muitos autores e pensadores que contribuíram para sua edificação são reverenciados.

Mas, fiquemos com Cícero, que em sua obra “De Republica”, baseava-a na liberdade do povo, autoridade do senado e competência dos juízes. Não estará na hora de reciclarmos esse tripé, com um povo livre, que possa levar vida digna, e com legisladores e juízes honestos, responsáveis e competentes? Só assim república não será sinônimo de bagunça e o pejorativo “répública” cairá definitivamente em desuso!     



        

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