Publicada em 10/05/2026, na seção "Tribuna Livre", do jornal "A Tribuna"
Sob a árvore frondosa
Dizia a si própria que não tinha ao
que atribuí-la, mas no fundo sabia: solidão. Filhos e netos distantes, morando
em outros países; marido ainda ativo, dando mais atenção ao trabalho do que à
companheira de tantos anos; amigas envolvidas com as próprias famílias,
ajudando a cuidar de netos. E ela? Não mais exercia o papel de mãe, não podia
exercer o papel de avó, enfrentava o distanciamento do marido.
Haveria solução para a sua vida? Por
solução queria dizer utilidade. O pensamento adquiria a velocidade da luz e o
susto foi grande quando a jovem se sentou ao seu lado, bebê chorando nos
braços, atrapalhada com a mochila das coisas da criança. O sorriso da moça não
escondia o constrangimento com a falta de jeito para lidar com a situação.
De repente, o aperto no coração
desapareceu e o auxilio à jovem mãe foi automático: ajudou-a a se desembaraçar
da mochila, conseguiu acalmar o bebê, utilizou-se de sua prática na troca de
fraldas e ainda indicou a posição mais confortável para amamentar o pequeno,
tudo ali no banco protegido pela grande árvore.
A moça quase não acreditava naquela
ajuda. Vida em cidade grande, longe da mãe e da família, sentia-se perdida nas
tarefas de mãe. Estava já arrependida da ideia de ter ido ao parque para que o
bebê respirasse ar mais puro, mas foi estimulada pela nova e mais experiente
amiga a continuar fazendo esses passeios. Com a promessa de que, logo, ela
estaria dominando a situação.
Despediram-se com agradecimentos,
recomendações e um beijo carinhoso. O aperto no coração da que enfrentava a
solidão já não mais existia. Ficou ali mais um tempo e quando se levantou para
voltar para casa, o pensamento já não voava, mas fervilhava: haveria tempo de
voltar a sentir aquela sensação maravilhosa de amor que une mãe e filho?
Concluiu que nunca havia pensado que
esses laços não precisam ser físicos. Listou para si própria os exemplos de
mães heroínas e também das que enfrentam a rotina das batalhas diárias para
traduzir em bem-estar o amor que sentem pelos filhos. Decidiu que poderia
ajudar a fazer a diferença. Passou a trabalhar na associação voltada a cuidar
de mães em dificuldades.
Voltou ao parque outras vezes,
sentou-se no mesmo banco, observou outras mães, ajudou sempre que foi preciso.
Mas nunca mais viu a jovem mãe atrapalhada e derrotada pela mochila do bebê.
Nem voltou a sentir o aperto no coração.
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