quinta-feira, 28 de abril de 2022

Luiz Felipe - 8 anos

 

                          Divertido e decidido

 

Eu faço a tradicional pergunta: “Quem vai escovar os dentes primeiro?” E você, que já está alerta, esperando por ela, responde antes que eu termine de falar: “O João!” E a cena se repete sempre que você e seu irmão vêm dormir em casa, antes de irem para a cama. É claro que o João Vitor também responde rápido: “O Tite!”

            Mas, aí, já foi: você, com sua carinha de sapeca, retruca: “Eu falei primeiro!” E começa uma “briga” – porque os dois querem aproveitar mais uns minutinhos no tablet – que, geralmente, acaba com ambos no banheiro, escovando os dentes ao mesmo tempo. É assim, Luiz Felipe, nosso Tite, que vocês crescem juntos, unidos e amigos, o que não impede discordâncias e alguns “entreveros”.

            Você chega aos 8 anos e continua sendo, junto com o João Vitor, a nossa alegria. Quantas vezes nos lembramos de você, em situações divertidas, e lá vem o comentário meu ou do vovô Paulo: “Ah, se o Tite estivesse aqui...” E nos pomos a rir, imaginando sua reação e as histórias que contaria.

            É que você usa termos e expressões que muitos adultos não usam. Tudo com espontaneidade, sem afetação. Irrequieto e alegre, como sempre foi, adora brincar com seu irmão e até faz algumas vontades dele na hora de escolher a brincadeira. Mas em uma “corrida” de Fórmula 1, correndo pelos corredores de sua casa, quando viu o “troféu” que o João havia escolhido para você entre os objetos da sala de brinquedos, não se aguentou: “Troféu de plástico, João? Assim não dá!...”

            Mas tem muitas coisas que você leva a sério, entre elas, tocar bateria. Você gosta da aula de música e faz questão de que as pessoas o assistam quando toca em casa. Certa vez, me fez até colocar os fones de ouvido para ouvir melhor seu ritmo. E ficou todo orgulhoso com os elogios.

            Vovô Santi continua encarregado de construir Monsters Jam com caixas de madeira e papelão. Você fica tão encantado porque são tão parecidos com os originais, que já teve até um “Tite Jam”. Vovó Janne ajuda a separar a “matéria-prima” para os “veículos”, só para ver o seu sorriso quando mais um Monster Jam se junta à coleção.

            As maquetes, casas e prédios também não podem faltar. E você já sabe construir muitas peças, como a casa com garagem e árvores, que criou na casa da vovó Janne, auxiliado pelo papai. Depois, veio todo orgulhoso mostrar o trabalho e perguntou, com seu jeitinho especial, para a mamãe: “Posso levar para casa?” Quando recebeu um sim, não cabia em si de contente.

            Quando você e João vão dormir na casa dos vovós Janne e Santi ou Ana e Paulo, é uma festa. Principalmente para os vovós! Mas vocês gostam muito dessas noites diferentes, quando podem ir dormir um pouco mais tarde, brincar e usar os tablets. Trazem de casa, cada um, um bichinho de pano, que lhes faz companhia na hora de ir dormir. Em uma dessas noites, na casa da vovó Ana, você se lembrou do gatinho: “Mamãe não pôs na mochila? Então, liga pra ela trazer.”  Isso às 11 horas da noite, depois de você ter “enrolado” muito para ir dormir!

            Nas chegadas e despedidas, ainda gosta que, no abraço, vovó Ana o levante um pouco do chão. E se diverte quando a vovó diz: “Você, eu ainda posso levantar, mas o João não dá mais, está muito grande!”

             Um dia, vieram os dois almoçar na casa da vovó. Tinham horário apertado: chegar, lavar as mãos e sentar para almoçar porque, em menos de uma hora, vovós iam levá-los para outros compromissos. Você tinha que estar no horário certo, na aula de bateria. Não havia tempo para brincar, mas até hoje não descobri em que momento você conseguiu abrir a caixa de brinquedos e espalhar as peças do Lego – que continua sendo uma de suas paixões – em cima da cama!...

            Assim como vovô Paulo também não sabe como você conseguiu levar uma miniatura de Monster Jam para a aula de música sem que ele visse. Depois, vovô ficou aborrecido, achando que você tinha perdido o brinquedo de que você gosta tanto, mas nem assim você contou a “arte”. Aliás, foi indo para a aula de bateria que eu e vovô descobrimos que uma das baquetas não estava no porta-luvas do carro, onde eu tinha certeza de que havia posto. “Mas eu coloquei aí!”, me defendi. Não adiantou: a primeira coisa que você falou, rindo, para a mamãe, quando ela foi buscá-lo, foi: “Sabe que a vovó Ana perdeu uma baqueta dentro do carro?!” Em tempo: a baqueta estava onde eu tinha colocado!

            Vai muito bem na natação – já faz 50 metros na raia – e sua criatividade continua se revelando principalmente no desenho e na escolha de cores fortes, tanto que essa é uma das aulas preferidas na escola. Tem notas boas, estuda em casa junto com a mamãe e é uma surpresa na cozinha: já sabe cozinhar feijão, também sob a supervisão da mamãe, e conta direitinho quais as várias “etapas” para o prato ficar pronto.

 Assim como seu irmão, fica ansioso para que o papai termine logo de trabalhar e saia do escritório para ficar com vocês. O amor, o carinho e as “correções de rota” de mamãe e papai vão transformando vocês em seres fortes e íntegros, capazes de caminhar pela vida com retidão.

            Suas reações e comentários, Tite, já demonstram sua inteligência e lógica. Como quando você me perguntou como eu tinha caído na rua. Eu expliquei, e você quis saber onde estava o vovô. Contei que ele caminhava um pouco mais à frente, e você se saiu com esta: “Você devia ter caído em cima dele. Sim, porque, praticamente, ele é uma almofada!”, referindo-se ao tamanho grande do vovô Paulo.

            Quando os quatro vovós se reúnem em sua casa, para almoçar ou jantar, sua expectativa é grande. Em uma noite de jantar, você organizou durante a tarde, junto com o João, uma “caça ao tesouro”, com pistas escritas em pedacinhos de papel espalhados pela casa. Após o jantar, os vovós foram convidados a participar da brincadeira e se divertiram muito com as pistas escritas nos papeizinhos. No final, com a ajuda do papai, chegamos ao tesouro: uma caixa com alguns chocolates dentro. Você ofereceu o chocolate aos participantes da “caça ao tesouro” e quando agradecemos e recusamos, você, com seu jeito maroto, sorriu e se explicou: “Não é para comer mesmo, é só para fazer de conta.”

            Em outra noite, estávamos sentados à mesa para jantar, e mamãe chamou você e João para comerem. Você chegou na sala e, notando que estávamos com roupas um pouco mais arrumadas, perguntou gesticulando e usando um pouco de ironia: “Alguém aqui está fazendo aniversário?”

            É assim, Tite, meu amado netinho, que chegamos aos seus 8 anos. Você continua a criança alegre, divertida, decidida, que não gosta de esperar para resolver as coisas. Seus comentários inteligentes nos deixam, muitas vezes, sem resposta. A mamãe continua sendo porto seguro, para quem você primeiro corre quando precisa de abrigo e carinho. O papai é o amigo carinhoso com quem você pode contar e brincar. O irmão João Vitor é o companheiro constante de corridas, brincadeiras e “aprontações”. Os amigos – você tem muitos na escola – requerem sempre sua presença.

            Vovós Janne, Santi e Paulo têm você e seu irmão sempre no coração, assim como esta vovó Ana, que não deixa passar um dia sem se lembrar de vocês e pedir ao Ser Maior que os proteja. Meu desejo neste seu aniversário é que você trilhe sempre os caminhos retos, vencendo obstáculos com sua dedicação e tenacidade e tendo no amor de seus pais, sua família e amigos, uma luz a iluminá-lo. Da mesma forma que você é uma luz em nossos caminhos!   

 

           

  

 

quarta-feira, 23 de março de 2022

Máscaras da pandemia e da alma

 Publicada na Tribuna Livre, do jornal "A Tribuna", em 23/03/2022

                                  

             Que caiam as máscaras

        

      Literalmente, as máscaras caíram. Mas, e no sentido figurado? Algum dia cairão? Esse insuportavelmente longo período do uso de máscaras contra o coronavirus parece estar terminando. Mas ninguém tem certeza de nada. Aqui, os número da doença melhoraram, a ponto de algumas autoridades permitirem a eliminação de máscaras em ambientes abertos e até fechados.

No mundo, entretanto, as notícias são desencontradas: os surtos na China e na Europa parecem nos dizer que não é bem assim; a baixíssima imunização em alguns países de economias mais frágeis e densamente povoados é uma porta escancarada ao surgimento de variantes; médicos, especialistas, mídia e redes sociais não chegam a um consenso; fake news infestam a internet. Os mais velhos são apontados como alvo preferencial do vírus e sentem-se ainda mais fragilizados. Em meio a tantas dúvidas, há os que alegremente se desfazem das máscaras e aqueles que juram que não vão deixar de usá-las.

            Porém, há máscaras que não podemos identificar. São as máscaras usadas por políticos que prometem melhorar a vida das populações, mas, na verdade, visam apenas conquistar o poder a qualquer custo, ainda que para isso tenham que gastar todos os recursos destinados àquelas populações que prometeram ajudar.

São as máscaras de autoridades de todos os níveis, de todos os Poderes, que decretam, assinam e colocam em prática atos para destruir os valores que juraram defender, visando unicamente conquistar votos para sua hegemonia política. São as máscaras que enganam eleitores, humildes ou abastados, sem instrução ou cultos. São as máscaras da honestidade escondendo a corrupção. São as máscaras que justificam o injustificável com mentiras grotescas.

E há as máscaras do cotidiano. As dos bondosos, que escondem maldade; as dos benemerentes e solidários, que encobrem desprezo; as dos pacíficos, que não deixam ver a violência; as dos inteligentes que prejudicam, roubam e destroem; as dos moralmente inatacáveis que são só podridão.

Também há as de falsos amigos; de médicos que disfarçam sua falta de humanidade; de professores que escamoteiam seu desinteresse; de estrelas da arte e do show business que são uma fraude; de aplaudidos profissionais incompetentes; de ídolos com pés de barro e até de familiares algozes.

Tudo, infelizmente, é inerente ao ser humano. Mas o que aconteceria se, como as máscaras físicas, as do cotidiano também caíssem? Em alguns casos, não nos surpreenderíamos. Mas, em muitos outros, além da surpresa, sentiríamos revolta, descrença, raiva. Desejaríamos a revanche.

Será melhor, então, que só caiam as máscaras da pandemia?  Não, ideal seria que todas as outras também caíssem. Difícil, mas podemos utilizar nossa inteligência e observação para conhecer e diminuir o número de mascarados. Se não formos ingênuos, se denunciarmos com responsabilidade e tomarmos as atitudes corretas, muitas máscaras cairão. Nossa vida ficará mais respirável, da mesma forma que o ar sem o uso das máscaras físicas.

Que nós, os governantes e os especialistas saibamos tomar as atitudes mais corretas, para que caiam as máscaras da pandemia. Que seja em breve, na totalidade e em definitivo. Porque as outras, só podemos ajudar a diminuir o número de quem as usa.    

 

  

 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Mais uma vez, Petrópolis

 Publicado na "Tribuna Livre" do jornal "A Tribuna", em 22/02/2022


                         Fantasiados à espera da chuva

                                                                                 

 Em um momento, o menino de oito anos estava no ônibus com sua mãe; nos momentos seguintes, o ônibus era arrastado pela torrencial água da chuva para dentro de um rio, o menino tentava de várias formas sair do ônibus antes que o veículo afundasse, mas era levado pelo rio em turbilhão. Em um momento, a mãe do menino estava com ele dentro do ônibus; nos momentos seguintes, o ônibus estava dentro do rio, e ela tentava desesperadamente salvar o filho, sem sucesso.

            Momentos depois, ela olhava para o repórter e a câmera com um olhar ausente, dolorido, sem conseguir responder às perguntas, ainda sem se dar totalmente conta da tragédia. Apenas mais um drama entre os incontáveis vividos pela população de Petrópolis. Somente uma história triste entre as tantas que se sucederam escancaradas pela mídia.

            Não sei o nome do menino, de sua mãe e nem o final da história. Só sei que tanta dor e tristeza não cabem no peito de uma só pessoa. Nem no de tantas outras mergulhadas no luto e no desespero, no Rio, em São Paulo, Minas, Bahia e outras regiões do País.

            Enchentes, lama, desmoronamentos, soterramentos. Perda de vidas e de bens materiais tão sofridamente conquistados. Caos. A sempre solidária população brasileira ajuda com doações de todo o tipo. Administradores transvestem-se de meteorologistas para explicar fenômenos da natureza causadores das violentas chuvas.

            Mas, não conseguem explicar por que deixaram de aplicar recursos públicos que poderiam, se não evitar, reduzir o caos. Em 20 de janeiro de 2011, neste mesmo espaço da “Tribuna Livre”, após violentas chuvas e grande tragédia que atingiram a região serrana do Rio de Janeiro, foi publicado o artigo “Tirar a fantasia antes que chova”.

            A dirigente máxima da Nação prometia não esperar as “próximas chuvas para chorar os próximos mortos”. Desejei que não se ficasse na frase de efeito, mas que essa declaração fosse traduzida em ações concretas de administradores em todos os níveis, dos locais aos federais.

            Infelizmente, nos meses de janeiro de 2012 e 2013, repetiram-se as tragédias. Que continuaram de modo recorrente, em incontáveis regiões do País, inclusive na Baixada e Litoral. Alguns governantes sérios tomaram atitudes para minimizar o problema.             Mas, a demagogia e a corrupção na política são uma praga que se multiplica na mesma velocidade em que as tragédias são esquecidas.

 A falta de planejamento e de aplicação de recursos, que reduziriam o impacto das chuvas no verão, também é esquecida rapidamente. Os meteorologistas (os verdadeiros) alertam, mas a construção de casas em locais perigosos continua. Quando se percebe, já há duas ou três casinhas erguidas na mesma encosta que desabou, matando pessoas.

             Mas, nós só lamentamos e ajudamos como podemos. Não cobramos de quem tem o dever de zelar pela vida e bem estar da população. Votamos por ideologia ou simpatia, sem nos preocuparmos com capacidade, coerência e honestidade.

            Afinal, o Carnaval já está aí, às portas. E mesmo com pandemia, vamos nos divertir. A máscara não pode ser de paetês, mas vamos usar a outra a que já estamos acostumados, para nos proteger do vírus e da tristeza. Vamos vestir a fantasia, mas tirá-la antes que cheguem as próximas chuvas. Porque, atrás delas, virá o habitual cordão de caos, horror e tragédia.  

                

             

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Natal 2021

 

                       

                   Os “Jesuses” da Arte e da Vida

 

                                                            

        Quando a Arte bateu à porta da Vida, foi recebida com alguma desconfiança. Levava gravador e parecia um pouco deprimida. Mas, com sua facilidade de conquistar admiradores, logo o ambiente se descontraiu e a conversa fluiu como entre duas velhas amigas. A Vida queria saber como a Arte resistia a tantos golpes que tentavam fazê-la pequena e insignificante.

            A Arte perguntava como a Vida resistia a tanto sofrimento, tanto empecilho à sua continuidade. Como era época de Natal, o assunto acabou dominando a conversa e logo a Arte preparou seu gravador para entrevistar a Vida. Foi bastante franca ao informar que seu objetivo era se inspirar na Vida para criar temas fortes, que atraíssem mentes comprometidas com o mundo mágico que ela era capaz de criar.  

            O Natal, por exemplo, fértil em dramas e também em histórias de solidariedade e amor, era um ótimo tema para a Arte. Foi a Vida que lembrou o início de tudo, há mais de dois mil anos, com o nascimento de um Menino, segundo os livros sagrados, em um ambiente pobre, mas protegido pelo amor de seus pais. No meio de uma sofrida viagem obrigatória para um recenseamento, Ele nasceu em um estábulo, foi envolto em panos por sua mãe e acabou adorado por pastores e reis magos, avisados do nascimento de Alguém especial por anjos resplandecentes.

            A Arte logo viu ali um belo tema para trabalho, e se pôs a imaginar o quanto poderia produzir. Pinturas e desenhos reproduzindo a história, contos e romances nela inspirados e uma infinidade de outras expressões de que poderia se valer. Mas, também pensou em quantos temas tristes poderia criar a partir dali.

            A Vida não se fez de rogada e passou a contar histórias de crianças mal amadas, torturadas e mortas por pais e responsáveis, que deveriam protegê-las e amá-las. De recém-nascidos gerados por acaso e contra a vontade de suas mães, descartados no lixo por elas. De pequenos famintos amontoados em barracos e dos mais abastados, ignorados pelos pais preocupados com suas próprias vidas.

            A Arte se emocionou, lembrando-se de quanto já havia criado inspirada nessa realidade. E perguntou à Vida: “O que o mundo está fazendo com esses pequenos Jesuses? Por que seus pais não os amam e protegem, como os pais do Jesus dos livros sagrados”? Depois, ponderou que só por esse episódio, lembrado pela Vida, já tinha valido a pena a visita e a entrevista. Agora, tinha a certeza de que a Vida era mesmo sua maior inspiração, capaz de torná-la mais forte e atraente.

            Mas se surpreendeu com o sorriso da Vida: “Você ainda não percebeu quantas vezes é você que me inspira? Quando você conta uma história triste de miséria e sofrimento, amenizada pela ação bondosa de alguém, quantas pessoas você inspira a imitar esse gesto, saindo em socorro dos mais necessitados? E quando você cria uma cena de heroísmo, quantos heróis da vida real, alguns anônimos, têm gestos admiráveis para ajudar e defender”?

            A Arte olhava, pensativa, o belo anjo esculpido em cores suaves, que se sobressaía no presépio que decorava a casa da Vida. Pensou nos anjos que teriam anunciado a chegada do pequeno Jesus. Percebeu que ela e a Vida compartilhavam dor e alegria. Sorriu e finalmente entendeu que elas mutuamente se imitavam!    

                  

 

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

João Vitor - 10 anos

 

             Um afinado expert em corridas

 

Você canta a música da vitória da Fórmula 1 para acompanhar seu irmão, que faz questão de tocá-la na bateria (com ritmo e balanço de dar inveja até em gente grande). Mas, sua vozinha é tão afinada e você “passeia” com tanta facilidade dos mais graves aos agudos, que eu fico encantada, apreciando os dois. E brinco: “Vou inscrever você no “The Voice Kids”. Mas você não entende logo a brincadeira e reage meio bravo: “De jeito nenhum! Não quero!” Só se acalma quando eu explico que é brincadeira.

            E, aí, você volta a preparar o “pódio”, com objetos recolhidos pela casa, que servem de troféus, e garrafinhas de água, que são a champanhe para os vencedores. Cadeiras da sala de brinquedos servem de degraus do pódio, ficando reservado para o terceiro lugar (privativo da vovó) uma almofada, não vá a vovó cair do alto da cadeira... Essas são, João Vitor, algumas de suas paixões, nesta fase em que você chega aos 10 anos.

            Música e Fórmula 1 são imbatíveis entre suas preferências. Está aprendendo a tocar guitarra e já dedilha também o violão. Aliás, ganhou uma guitarra de presente de aniversário, e não cabe em si de orgulhoso! Sabe cantar várias músicas de um repertório de alto nível, não fossem papai e mamãe fãs de boa música. Não perde uma corrida de Fórmula 1 pela televisão e, se possível, assiste também aos treinos, torcendo muito, ao lado do papai. Com a ajuda dele, redigiu no computador e imprimiu um livro sobre Fórmula 1, com detalhes sobre pilotos, carros e corridas. E faz questão de explicar tudo para esta vovó Ana...

            Aliás, é inspirado na Fórmula 1 que gosta de brincar de corrida, andando rápido pela casa, seguindo circuitos que você “cria” pelo chão com tiras de EVA, e segurando nas mãos direções de brinquedo, enquanto o ronco dos motores é reproduzido fielmente por você e pelo Tite, elevando o barulho em muitos decibéis. Seu irmão nem sempre está disposto a brincar de “corrida”, mas você insiste, determina: “Você vai brincar”! Dia destes, Luiz Felipe se saiu com esta: “Não quero! Onde fica minha liberdade”?! É então que você insiste, fala, faz acordos – “depois eu brinco do que você quiser” – e a “corrida” acontece, com a participação da vovó Ana, já que o terceiro lugar no pódio não pode ficar vazio...

            Isso é apenas um pouquinho do dia a dia de um menino inteligente, que chega aos dez anos frequentando a escola com alegria, fazendo lição de casa sob o olhar vigilante da mamãe, curtindo jogos difíceis no tablet e sempre interessado nas aulas de inglês. Desenhar e pintar são também uma maneira de expressar sua criatividade, e na casa da vovó Janne e vovô Santi estão, na parede, alguns de seus quadros, junto com os do Tite.

 Construir casas, armário e objetos com caixas de papelão e isopor é uma realização para você e seu irmão. Para o vovô Santi sobra a tarefa de acrescentar prateleiras nos armários e pintar e incrementar as “construções”. Você também desenha “plantas” de casas e tem ótimas ideias para modificar ambientes, não negando a tendência para essa área.

            Na área da casa da vovó Ana e vovô Paulo, os tico-ticos há muito tempo foram substituídos por patinetes, utilizados em manobras “radicais” nas corridas com o Tite. Aliás, você gosta muito de competir e, embora na posição de irmão “mais velho” tome atitudes protetoras em relação ao menor, seu objetivo é sempre vencer. É assim até nas corridas pelo chão da casa, com as miniaturas de carros. São corridas muito disputadas, sempre acompanhadas pelo (ai, meus ouvidos!) “ronco dos motores”.

 Em Serra Negra, você ainda curte os carrinhos todos enfeitados, empurrados pelas pessoas que dão voltas da praça da Prefeitura. Como você está grande, tem que se espremer dentro do carrinho, junto com seu irmão. Ou sentar-se no chão ou no “cavalo” que vai à frente da maioria dos carrinhos. Ah! E uma volta só não basta. Tem que ter outras, em outro carrinho. Depois, vão correr na praça, em nova disputa. Mas, aí, quem quer disputar várias corridas é o Tite, que tem que convencer você a continuar participando...

            Exercício físico é constante em sua vida. Tem aulas divertidas com a personal trainer e gosta de fazer a série de exercícios para a sua idade, criada pelo vovô Paulo, que tem experiência em Educação Física. Quando lhe pergunto se você está fazendo os exercícios, responde todo orgulhoso: “Claro, dia sim, dia não”! E o Tite, que está atento à conversa: “João é o mais forte de nós”! E você, ainda mais orgulhoso: “Talvez mais que a mamãe, mas mais que o papai, não sei não”...

Pode? Ah, pode sim! Em sua vida de criança, tudo pode. Você é forte, ágil, amoroso e divertido. Está crescendo e, muitas vezes, já raciocina como gente grande. Mas não deixa de ser uma criança alegre, que adora “aprontar” (será que puxou ao vovô Paulo?!), como quando viu a vovó Ana fazer um gesto de impaciência, com os braços para o alto, e, imediatamente, começou a imitar a vovó. Resultado: hoje, todos na família, rindo muito, imitam o gesto. Também inventou um bordão para o vovô Paulo: “Ô, vovô Paulo!”, dando ênfase e entonação especial às sílabas. Vovô finge que fica bravo, mas fica mesmo é todo orgulhoso.

Às vezes, se inspira nas atividades dos adultos para reproduzi-las, como quando você viu vovó Ana escrevendo no note book, e foi buscar o seu, para abri-lo do outro lado da mesa e dar andamento ao livro sobre Fórmula 1. Quando a vovó viu, o Tite também estava com o note book no outro canto da mesa, muito concentrado, escrevendo sobre Monster Jam. Inesquecível!!!

Nestes dez anos, impossível não lembrar de tantas emoções vividas desde que conheci aquele recém-nascido rosado e lindo, agarradinho na mamãe, na maternidade. Naquele dia, você me conquistou para sempre. Você, João Vitor, e seu irmão Luiz Felipe continuam sendo o estímulo para nossas vidas, para papai e mamãe, família e amigos. Cercado de muito amor, você cresce. Em alguns aspectos, já flerta com a maturidade. E esta vovó Ana só pode dizer e desejar que você continue, vida afora, por esse lindo caminho de bondade, alegrias, persistência e conquistas!    

 

 

 

     

                 

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Luiz Felipe - sete anos

 

                 Sinônimo de Alegria

 

“Vovó, se você quiser ver de novo meu desenho, está em cima do piano”. E você sai correndo (como sempre!) todo orgulhoso. É o Luiz Felipe em seus sete anos, revelando seu dom e sua felicidade com a arte de desenhar. Aos poucos, a facilidade para o desenho e para a cor foram-se impondo e, agora, se deixarem, você desenha o dia inteiro. E das folhas em branco, dos lápis e canetas e, principalmente, das suas mãozinhas, vão surgindo carros, monsters trucks e pistas de Monster Jam, piratas e suas caveiras, enfim, todos temas “relaxantes”...

Mas você tem muitas outras habilidades, como montar, desmontar e refazer objetos (principalmente carros e caminhões, claro!) com peças do Lego, em uma velocidade surpreendente, sem esquecer até mesmo das peças bem pequenas. Quando é muito difícil, tem ajuda de uma assistente muito especial, a mamãe, que, com paciência, vai encaixando o que falta. Papai, às vezes, também ajuda, mas, para ele, fica sempre reservada a parte “Quebrou? Descolou? Papai arruma”! Aliás, nisso você é igualzinho ao seu irmão João Vitor. Quando alguma coisa precisa ser consertada, a esperança é o papai: ele dá um jeito!

Este é só um recorte da vida em sua linda família. Há os momentos bons e alegres, há o tempo de estudar, o tempo de lazer, o tempo do tablet, da leitura, há as teimosias, as correrias, gritarias e broncas, como em qualquer família. E há também muito amor e carinho, brincadeiras e alegria. Seu espírito brincalhão é evidente, você gosta de dar sustos, de contar histórias usando sua fértil imaginação.

Tem resposta para tudo, explicando nos mínimos detalhes e usando muitos gestos. Sinônimos de Tite são alegria e movimento. Dia desse, vovó comentou: “Você está cansadinho, né? Precisa descansar, dormir”. E você, que não tinha a menor intenção de ir para a cama, olhou para mim, abriu bem seus olhos e declarou: “Não estou cansado! Olha como meus olhos estão abertos”!

Como o papai, gosta de música e de tocar bateria. Você tem ritmo, gestos precisos, algumas vezes até parece um baterista com longa experiência. A “banda” formada por você, papai e João é sempre muito aplaudida pelos “fãmiliares”! É carinhoso, mas voluntarioso. Fica bravo com vovô Paulo, que muitas vezes reclama de suas correrias pela casa e pulos no sofá. Então, junto com João, inventou um apelido para o vovô: “Você é o vovô Reclamão”!... Mas, brincar de dar susto no vovô, continua sendo uma constante, provocando boas risadas.

Como quando você veio com aquela carinha de sapeca, todo risonho, me segredar: “Eu pus uma porção de tampinhas no alto da escada para o vovô pisar e levar um susto”. E saiu aos pulinhos, encantado com a própria “arte”. Mas também sabe pedir, todo dengoso: “Vovô, pode mudar o canal da TV para eu assistir meu desenho”?

E esse dengo você distribui para mamãe, papai, João e vovós. Na casa da vovó Janne e do vovô Santiago, uma brincadeira constante, junto com seu irmão, é o supermercado, ocasião em que a despensa da vovó Janne fica devidamente repaginada, para vocês poderem montar o “supermercado”. Vovô Santi é sempre requisitado para fazer um desenho de carro para você pintar, ou para “fabricar” um carro com papelão, o que ele faz com prazer. 

Um dia você foi buscar “língua de gato” no armário do vovô Paulo. Tinha só três e você não teve dúvidas: “Posso comer uma, o João, outra e partir a outra ao meio, um pedaço pra cada um”? Sempre pergunta para o irmão, quando está comendo algumas coisa gostosa: “Você quer, João?” E, apesar das brigas comuns entre irmãos, esse carinho transparece em várias ocasiões, como quando, no Natal, fez um desenho “para meu irmão João” – como você contou no meu ouvido – para colocar na Árvore.

 No aniversário do João, fez um livro para ele, com formas geométricas, colorido e caprichado. Nesse dia, sua personalidade se revelou mais uma vez, quando mamãe, não encontrando o livro, perguntou: “Tite, onde está”? E você, do alto dos seus seis anos: “Não é responsabilidade minha saber onde está o livro que eu fiz para o João com todo o amor e carinho”! Aliás, a colocação dos tempos verbais em suas frases surpreende. Disputando corrida de carrinhos com o João, se saiu com esta: “Se ele não tivesse me espremido, eu teria ganho fácil”.

 As coisas da casa também lhe interessam, como quando vovó se queixou de que o forno elétrico estava com defeito. Você foi até o aparelho e me “explicou” como aumentar e diminuir a temperatura: “Tem que pôr o botão no amarelo. Se puser no vermelho, vai queimar tudo mesmo. E, pra consertar, manda para São Paulo. Em Santos, você não consegue”. E ainda foi conferir se os demais aparelhos da cozinha estavam funcionando direito... Depois, pegou a cola que usa na escola e foi “consertar” o revestimento de um móvel, que estava descascando.

Com a mamãe, é um “grudinho”, como ela diz. Neste tempo de pandemia, é ela quem assiste aula on line junto com você, para lhe ajudar a manter a atenção. Quer sempre estar perto dela, presta atenção no que ela fala, a ponto de ficar preocupado, por exemplo, com o prazo de validade dos alimentos, da mesma maneira que ela. Quando foi resolvido que a churrasqueira da vovó Ana e do vovô Paulo voltaria a funcionar, após muito tempo inativa, você disparou: “Aposto que os espetos estão fora da validade”! Mas mamãe e papai também precisam brigar quando você “apronta”, o que é constante, pela sua própria natureza irrequieta. Aí, você aceita o que eles falam, como quando se queixou: “Está faltando um pouco de sal no macarrão, mas a mamãe não deixa pôr muito”.

Assim você vai crescendo, Tite, e se revelando. Sabe muito bem desfrutar do amor, da atenção e das brincadeiras do papai e da mamãe. Sua presença é a alegria de um ambiente. A não ser quando resolve falar de Monster Jam e fica uma porção de tempo explicando manobras radicais e citando nomes de carros e pilotos preferidos. Vovó até comentou um dia, após você e João terem “construído”, com o Lego, duas torres muito altas: “Acho que vocês vão ser construtores, vão ser os “Irmãos à Obra”, referindo-me ao programa de TV. E você, na mesma hora: “Acho que não vai rolar... Eu vou ser construtor de Monster Jam!”

Dá para não ficar encantada com você, sua inteligência, raciocínio, respostas rápidas, atitudes decididas”? Você, Luiz Felipe, é o nosso Tite, amor da família e dos amigos próximos. Que você conserve essa alegria por toda a vida, que sua luz brilhe sempre, aquecendo e iluminando pessoas e ambientes. Que a Luz Maior esteja ao seu lado, para que você possa fazer muitos “Tim-Tins” do jeito que você gosta, batendo com seu copo nos copos de cada pessoa presente, comemorando a Vida e o Amor!

domingo, 27 de dezembro de 2020

Natal e Ano Novo

 

                                   "Espírito de Réveillon”


          "O que é  Espírito de Natal para você?” Se essa pergunta fosse feita a pessoas sem distinção de raça ou sexo, de todas as idades, crenças (ou descrenças) religiosas, níveis cultural e econômico, honradas ou bandidas, felizes ou amarguradas, as respostas seriam variadas, mas não se afastariam muito do denominador comum: “É o tempo da felicidade”.

            E quantos sentimentos e atitudes cabem no Espírito de Natal! Começando pelo sentimento maior, o amor, que origina a bondade, a solidariedade, o domínio da raiva e do rancor, o respeito, a alegria, os desejos de saúde, sucesso e paz autêntica para a humanidade. Passando pela vontade de ajudar todos que sofrem e desembocando na recordação da mensagem deixada pelo Aniversariante da época, de amor e retidão acima de tudo.

            Este Natal de 2020 não perdeu o seu Espírito, mas não se pode negar que foi mais triste. Culpa da pandemia, que levou incontáveis e preciosas vidas, trouxe dificuldades financeiras, impossibilitou beijos e abraços nas pessoas queridas – nem as crianças puderam abraçar Papai Noel! – e deixou as cidades mais tristes, com o preto e branco substituindo as cores das luzes e dos enfeites.

            E o “Espírito de Réveillon”, como será? Também mais triste, sem os coloridos fogos de artifício para saudar 2021. Sem as comemorações de rua, sem muito da alegria que tradicionalmente, nessa noite, insiste em invadir os corações das pessoas, naquela inexplicável esperança da chegada de tempos melhores.

            Mas, é essa ansiedade pelo bom e pelo alegre que vai nos manter em movimento. Que nos vai fazer seguir em frente. É o Espírito de Natal que vai sobreviver no “Espírito de Réveillon”. À exceção de pessoas passando por períodos excepcionalmente adversos, é da natureza humana buscar o melhor. Esperar a vitória sobre a doença, seja de que maneira for, venha mais célere ou mais lenta.

            E, se fôssemos mais espertos, o Réveillon significaria não apenas promessas de Ano Novo, mas o início de um tempo que perpetuaria o tripé do verdadeiro Espírito de Natal: amor, retidão de conduta e combate ao sofrimento. Então, voltaríamos a anotar e nos inspirar em gestos de bondade e solidariedade. Combateríamos, com todas as armas disponíveis, a mentira e a maldade.

            Quem tem o poder nas mãos deixaria de se preocupar apenas em mantê-lo, passando a cuidar mais da população pela qual é responsável, diminuindo a miséria, a fome, a violência e o sofrimento. Os anjos do Natal voltariam a povoar os sonhos dos meninos. As luzes coloridas tornariam a se acender. A música – ainda que não fosse a de Natal – fluiria no ar, penetrando nas casas, nos hospitais e nos corações.

            E, quando pudéssemos voltar a nos abraçar, quem sabe, olhando para o céu, teríamos a impressão de ver uma figura de vermelho, dirigindo um trenó puxado por renas e sorrindo com seu infalível “Ho! Ho! Ho!”  Mas, no lugar dos presentes, estariam mais amor, honestidade e felicidade sendo derramados sobre a multidão. 


(Crônica publicada em 27/12/2020, na seção "Tribuna Livre", do jornal "A Tribuna")